Sexualidade na adolescência
Novos comportamentos

     


Adolescência , Sexualidade e Internet
(Palestra proferida em 13/08/2005 ABENEPI local H. P. Pinel)



• A moratória da adolescência
• Sexualidade na adolescência
• A Internet e o virtual
• Paraíso e inferno nos chats da Internet .




. A moratória da adolescência


Socializamos nossos adolescentes com o pão mais quentinho que sai de nossa padaria de valores sociais e com isso podemos resumir que, esperamos apenas três coisas de nossos adolescentes quando se tornarem adultos.

Que tenham 1)sucesso (poder), 2) amor e 3)sexo ou em outras palavras que sejam invejados , amados e desejados, mas dizemos a eles para, apesar de tudo, esperarem, que não estão maduros e que terão uma pequena moratória de tempo que ninguém sabe de quanto será para se tornarem adultos e autônomos. (para alguns de algumas famílias talvez a vida inteira).

“Sejam autônomos e independentes, mas esperem, avisaremos quando isso é aceitável.”

Mas o adolescente se olha no espelho, e facilmente verifica que não é mais criança e aquela graça infantil que garante certas benesses em nossa sociedade se foi. A proteção, o amor incondicional e a solicitude dos adultos que compõem a cesta de segurança das crianças foram perdidos, e a autonomia e os direitos de adulto não são alcançados.

Então caímos no lugar comum que é...

O adolescente não é mais nada, nem criança amada, nem adulto em plenos direitos.

Parado em frente ao monitor / espelho, imagina como os outros o vêem. O olhar cândido reservado as crianças não lhe corresponde e nem a aceitação como um adulto entre adultos lhe é dada. Esse vazio, em forma de insegurança se torna um traço comum nos adolescentes. E como conseqüência, desde a timidez depressiva ao estardalhaço agressor, ecoam as mesmas questões: serei amado, desejável e poderei ter sucesso?

Aí aparece um novo elemento nessa equação, ou melhor, um novo espelho. A Internet , através dos chats, blogs , Messenger e etc... Que talvez seja, um lugar onde possam ser crianças ou adultos e em geral se sentem mais hábeis que seus pais.

Mas disso, falarei daqui a pouco, agora vamos à sexualidade na adolescência.

• Sexualidade na adolescência


Acredito que o que há em comum entre nossa adolescência e a dos nossos filhos , talvez seja a puberdade, que representa nosso desenvolvimento biológico. No entanto, nossa adolescência , sem querer ser radical e já sendo, guarda pouca semelhança com a dos nossos filhos. Portanto, é uma forma que não conhecemos. Compartilhamos , com eles a aventura que é nos tornarmos adultos, com nossos hormônios prontos para a grande descoberta que é se relacionar com outra pessoa , mas é sempre necessário definirmos a adolescência (se isso é possível) dentro de um contexto sócio-cultural e econômico. Do adolescente de cabelos compridos e sandálias de sola de pneu no melhor estilo hippie de boutique dos anos 70/80 ao adolescente malhado e de cabelo curto e muitas vezes anabolizado, exprime-se talvez a distância que temos que percorrer para nos aproximarmos deles.

Bem , de qualquer jeito, temos um adolescente a quem propomos esperar, entrar em moratória e ao mesmo tempo demonstrar, para o nosso sossego, que ele está pronto para este mundo , que terá sucesso , amor e sexo e que vive uma adolescência que não é a nossa portanto não a conhecemos.

Além disso, criamos toda uma indústria de moda que enaltece a sensualidade do adolescente, as modelos são cada vez mais novas, seus corpos não escondem sua pós-puberdade. A adolescência passa a ser o modelo de sensualidade para os “adultos” .

Temos uma cultura que hiper investe em um estereótipo sensual “teen” e esperamos que nossos “teens” esperem o momento adequado. Ao mesmo tempo seus corpos explodem com seus hormônios e suas mentes babam com a sensualidade que a nossa cultura lhes atribui.

Provavelmente a maior aventura emocional da adolescência seja a descoberta do sexo, Em geral lhes é dito para esperar para viver a sexualidade e ao mesmo tempo os elegemos como símbolo de sexualidade.

Mas atualmente há mais um caminho para a sexualidade dos adolescentes . A Internet.



• A Internet e o virtual

Estamos aqui e lá graças ao poder de comunicação e tele-presença da Internet e dentro desta nova realidade, a virtualização dos corpos que experimentamos hoje é uma nova etapa na aventura de autocriação e evolução não linear que sustenta a nossa espécie .

A virtualização por este prisma é uma mudança de identidade, como aponta Levy, é a transformação de uma atividade localizada e circunscrita em atividade não localizada, dessincronizada e coletivizada. A virtualização seria não uma desumanização, mas sim uma reinvenção do humano.

Entretanto, a fronteira não é claramente traçada entre reinvenção e alienação ou virtualização e amputação de nossos corpos e humanidades. A virtualização é o movimento que se constitui na nossa atualidade e apesar disto, ela é vivida ou criticada por muitos como desumanizante e mesmo inumana.

O que parece acontecer é que a força e a velocidade da virtualização contemporânea são tão impactantes que pessoas acabam sendo exiladas de seus saberes, identidades e lugares.

Em contra partida devemos em nossos consultórios e escolas acompanhar e dar sentido à virtualização, inventando talvez uma nova moral de nômades cibernéticos, que cultuem a hospitalidade neste momento fértil de desterritorialização. Deve-se propor uma virtualização hospitaleira, inclusiva e qualificante, em oposição a uma virtualização excludente, desqualificativa e pervertida.

Agora que já fiz um posicionamento em relação à Internet, fica faltando adolescência e Internet.

Vamos aos nossos adolescentes....

• Paraíso e inferno nos chats da Internet .

O que há de novo no comportamento sexual dos adolescentes?


Com certeza o sexo virtual!


Sexo virtual como resposta à moratória da adolescência e o hiper investimento em uma sexualidade “Teen”. Transitando entre a repressão e o incentivo.

Um cliente adolescente definiu assim o sexo virtual em uma sessão comigo. Ele disse que é algo maior que a masturbação e algo menor que o sexo ao vivo. E ele tentou me explicar às diferenças.

Para ele na masturbação, não havia novidades mesmo com a Internet, ele procura filmes na Internet (de 10 a 20 segundos cada) e escolhe alguns entre as várias categorias em que são divididos (oral , anal , grupal , seios grandes, seios pequenos etc...) e se excitava assim. Perguntado por suas preferências disse que variava muito e não foi nada objetivo.

No sexo ao vivo, falou que já tinha ido a profissionais (palavra minha em substituição à que ele usou) com um primo mais velho (Ah! Sempre os primos mais velhos) e que foi legal, mas nada demais e que com garotas da idade dele (16 anos) ele ficava e às vezes rolava alguma coisa interessante, mas nunca “sexo mesmo”. Entenda-se penetração.

Mas em relação ao sexo virtual é que ele se alongou na explicação. Na verdade, senti que ele queria saber a minha opinião e aprovação dos seus atos. Contou que principalmente tarde da noite ou à tarde, eram seus horários preferidos, já que não iría ser incomodado por seus pais.

Tentarei condensar a descrição feita por ele. Primeiro, ele afirma que escolhe em que sala quer entrar e que elas são divididas por idade, opção sexual ou estado, depende de que site ele estiver acessando. Depois explicou-me que raramente entra em sala da idade dele, já que de 16 anos não dá nada. Disse também que afinal acha que todo mundo mente mesmo na Internet e isso é que é legal, já que dá para viajar.

De acordo com ele e outros clientes meus, dá para mostrar um certo processo mais ou menos estável no sexo virtual de adolescentes.

Primeiro há uma fase de composição do personagem, dizendo quem são (do jeito que bem entenderem), altura, idade, olhos, cabelos, profissão, etc. Nesta fase em geral estão falando mais ou menos com três ou quatro pessoas. Daí possivelmente sai um casal, que irá tc (expressão para teclar) e através do teclado descrever um ao outro o que estariam fazendo reciprocamente, enquanto fora da tela estariam se excitando e a um certo momento se masturbando. É interessante que muitas vezes por noite podem teclar uma relação de sexo virtual com diversas pessoas, mas em algum momento escolhem uma relação para se masturbar. A explicação de acordo com eles e elas é: “que de repente pinta um papo mais irado ou lá pelas tantas não dá para agüentar sem se masturbar”. Os pares podem se repetir ou não em outros dias, em geral não.

De qualquer forma, o sexo virtual é a descoberta de uma forma de sexo, onde os adolescentes experimentam os primeiros contatos em relações hetero ou homo, podendo idealizar e fantasiar à vontade seu papel e interagir com um objeto a qual ele não domina, por isso tendo a concordar que é um uma relação sexual que não estaria no mesmo patamar que a masturbação pura e simples. Já que possui uma alta interatividade com uma pessoa que irá desejar e fantasiar também .

Na verdade, os parceiros praticamente afirmam através do teclado seus gostos e preferências, mesmo que sejam as dos seus personagens e assim se fazem conhecer pelo outro. O ato sexual deve ser descrito e respondido ao outro. Com isso há uma forma de exposição libertadora quanto ao sexo.

Se considerarmos que nossos personagens estarão falando de alguma maneira de nós mesmos, a afirmação anterior será ainda mais reforçada em qualquer caso.

Por outro lado me questiono qual será o resultado desta nova iniciação sexual?

O mais interessante foi quando uma vez perguntados sobre como encarariam o uso de webcam - câmeras de baixa definição próprias para uso na Internet no sexo virtual - a maioria se disse contra, no máximo aceitaria para o parceiro (a), indicando possivelmente que o alto nível de fantasia permitido pelo anonimato não é uma limitação, mas sim uma grande qualidade desse tipo de encontro.

Além disso, podemos datar em uns dez anos atrás o começo da disseminação ou da popularização da Internet no Brasil. Isto quer dizer que já podemos contar com alguns “adultos jovens” que de alguma forma sofreram uma socialização através da Internet e nos próximos anos toda uma geração que cresceu na sua adolescência tendo usado intensamente o computador e mais especificamente a Internet, que estará no mercado de trabalho, casando etc...

Mas é sempre importante frisar os perigos aos quais os adolescentes podem estar expostos na Internet. Apenas para que se possa situar o contexto de risco, a Microsoft que é quase um monopólio dos sistemas operacionais dos computadores, possui o navegador Internet Explorer, com artigos em seu site de como prevenir danos às crianças e adolescentes na Internet (predadores e bulling cibernéticos). Os conselhos são divididos em faixas de idade de mais ou menos três anos cada e chega-se inclusive a recomendar que o computador usado pelos adolescentes esteja no escritório da casa com a tela em posição tal que os adultos possam a qualquer momento fiscalizar os conteúdos que os adolescentes estejam navegando.

O sexo virtual obviamente não é restrito aos adolescentes, muito menos algo raro em relação à classe média e a classe alta, que possuem pelo menos um computador em casa. Em conseqüência disso há uma série de comportamentos sexuais e novas formas de modalidades de interação social que estão sendo inseridos no tecido social e os adolescentes não estão imunes a esses fatos.

O primeiro é que adultos e adolescentes, hoje em dia estão muito mais expostos a conteúdos sexuais explícitos que outrora estariam mais distantes do convívio da classe média moralista à que nós pertencemos. Estes comportamentos estariam restritos às margens da nossa sociedade. Pelo menos o comportamento explícito, como o beijo de um casal homossexual na rua ainda hoje é algo raro e mesmo perigoso pelos motivos da homofobia existente.

No entanto, hoje um adolescente que apresentar uma certa ambigüidade sobre sentir-se atraído por pessoas do mesmo sexo (escaparei da discussão que este fato indicaria uma homossexualidade latente ou como diria Dolto, que seria mais uma experiência narcisista, uma roçadura nas palavras dela) poderá estar exposto a contatos e imagens que obviamente seriam tremendamente mais inacessíveis há apenas uma década atrás.

Quais são as possíveis conseqüências disto?

Estes fatos ajudariam aos adolescentes, através desta exposição a materiais que normalmente estariam interditados nas margens da sociedade ou essa possível superexposição acarretaria um efeito manipulativo de banalização do sexo e pura experimentalização, na verdade produzindo uma desensibilização das relações sexuais?


Além disso, a possibilidade de exposição anônima que os chats viabilizam, impõe novas modalidades de desvelamento, através de suas fantasias, além de contar com a proteção do anonimato, mostram o que até aquele momento seria forçosamente invisível. A questão se repete: até que ponto, poderemos afirmar o sexo virtual como positivo ou negativo, ou em outros termos como algo que rompe barreiras e propicia contatos entre humanidades, ou ao contrário como uma prática que banaliza e desumaniza as relações entre as pessoas?

Acredito que a resposta não é dada pelos fatos, mas sim pela intencionalidade de imprimir um caráter humano aos fatos da nossa humanidade que se reinventa a cada momento, ano, década, século e milênio.


Família, escolas e outros agentes sociais precisam refletir e se preparar para fomentar uma ética nômade, que possa abraçar a idéia de hospitalidade no ciberespaço, que seja qualificante e não excludente, construtiva e não predadora. Enfim otimista com os desígnios da humanidade e não pessimista.


Por isso e voltando ao ponto central para concluir esta palestra, acredito que devamos intensamente nos aproximar do ciberespaço junto com nossos filhos adolescentes, para que possamos recriar a nossa caminhada como humanidade


 

Leia também os textos publicados anteriormente.

 

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